TRANSE EM VENEZA, ONTEM E HOJE
Estamos em 1980. Festival de Veneza. Glauber Rocha se prepara para o que será seu último combate: a exibição de A idade da terra –– o filme que acreditava ser uma revolução no Cinema Novo e sobre o qual falou: “Não vou explicar nada, eu quero que se veja e que se ouça. O filme tem um som revolucionário (...). Um filme audiovisual, infelizmente, não é um filme de enredo, um filme clássico, um filme convencional”. (1)
A tensão é muito grande. À medida que o A idade da terra é projetado, as pessoas levantam-se e saem. No meio delas estão, inclusive, alguns fãs de Glauber. Quando o filme termina, a sala está vazia. Fora alguns franceses, os críticos tiveram uma reação pouco favorável. “Ninguém entendia direito a proposta de A idade da terra e o problema era que a maioria das pessoas não estava prestando atenção no filme, mas na figura de Glauber, cada vez mais exaltado”, afirmou o jornalista Pedro Del Picchia. (2)
No fim do festival, quando premiaram o francês Louis Malle, Glauber promoveu um evento inusitado: fez uma passeata pelo Lido de Veneza, enquanto discursava contra o “imperialismo cultural que abafava nossas raízes, a nossa potencialidade”. Ele não cansava de repetir: “Meu estilo de filmar está profundamente ligado à cultura popular brasileira (...). É um cinema feito sobre o povo e com a colaboração cultural do povo (...)”. (3)
Apesar disso, no filme Terra em transe (1967), ao compor o poeta Paulo Martins com as ambigüidades, as dúvidas e os impasses, que eram dele próprio, Glauber reconhece sua dificuldade de se aproximar do povo. Como observa Ivana Bentes (4) , em algumas das cartas que envia aos amigos, no período em que esteve fora do Brasil, o cineasta se assina “Paulo Martins”, “o poeta que em Terra em transe ruma para a morte e ‘tem fome do absoluto’”. Glauber ainda disse sobre Terra em transe: “A única coisa boa deste filme é sair na hora e vingar as pessoas e responder à brutalidade – mas o povo não entende. O povo vaia e apedreja e eu fiz para o povo – imagina que mito besta é o povo” Glauber repetia fora das telas as angústias de Paulo Martins: “Mas o que é o povo?” (5)
No entanto, ele nunca desistiu do povo. Antes de Terra em transe, tinha feito Pátio, Barravento, Deus e o diabo na terra do sol; depois, até chegar ao Festival de Veneza, em 1980, fez O dragão da maldade contra o santo guerreiro, O leão de sete cabeças, Cabeças cortadas, Câncer, Claro, entre outros. A idade da terra é a radicalização de sua proposta estética. O ápice de seu processo cinematográfico, que não experimentou a decadência. Glauber usou e abusou da apropriação subjetiva do imaginário popular. Em nome de decisões filosóficas pessoais, ele recortou e escolheu à vontade fatos sociais e políticos brasileiros, multiplicando as potencialidades de sua arte.
A prova disso é o fato irrefutável de que os gritos de Glauber contra o “imperialismo cultural que abafava nossas raízes” na passeata pelo Lido de Veneza ainda ecoam na cultura brasileira contemporânea. Ele tratou de temas controversos da política brasileira, da miséria, da fome, da relação colonizado/colonizar, que até hoje nos dizem respeito.
Glauber morre, em 22 de agosto de 1981, menos de um ano após o lançamento de A idade da terra.
Estamos no século 21. Eryk Rocha, filho do cineasta, lança o filme Rocha que voa, sobre a passagem do pai por Cuba, e o livro homônimo, com a proposta de “penetrar nos meandros da história e reunir as importantes e variadas fontes dessa memória para revitalizá-la e criar uma ponte que gere uma reflexão atual sobre o tempo presente”: “Hoje a revolução se faz no dia-a-dia. E aí está o grande desafio da minha geração, aproveitar-se da ressonância de gritos do passado sobre o espaço convulsionado do agora para projetar uma imagem do futuro”. (6)
Preste atenção. Escute. Glauber Rocha ainda discursa no Lido de Veneza.
(1)Glauber, o Filme – Labirinto do Brasil (2004) /Silvio Tendler.
(2) Idem.
(3) Documentário Depois do Transe, em Terra em Transe (1967), versão restaurada/ 2006/ Glauber Rocha.
(4) Rocha, Glauber. Cartas ao mundo. Org.: Ivana Bentes. São Paulo: Cia. das Letras, 1997, p.23.
(5) Idem. p.38
(6) Rocha, Eryk. A rocha que voa. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2002.
Jornalista, escritora e doutoranda em Literatura Brasileira pela PUC/Rio. Entre outros livros publicou O beijo da morte, em parceria com Carlos Heitor Cony, vencedor do prêmio Jabuti/2004 - categoria Reportagem e Biografia, e O Sorriso da Sociedade. Trabalhou no Jornal Folha de S. Paulo, na Editora Globo e Revista Manchete.