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Björk. Volta, o show

 

Primeiro vi o show e, em seguida, ouvi o disco. Adorei os dois. E como costuma acontecer com propostas estéticas como a de Björk, que realizam dentro do show business a proposta wagneriana de obra de arte total, o show, evidentemente, é mais completo que o disco. O disco é um dos elementos que dão forma à arte conceitual de Björk, com seus aspectos musicais e visuais.

O show aconteceu no Rio de Janeiro em 26 de outubro último, por ocasião do Tim Festival (Marina da Glória). É impossível descrevê-lo sem comentar a performance da platéia, que parecia complementar conscientemente o espetáculo de Björk através da arte corporal. Um número significativo de jovens presentes ao show marcava a sua presença com figurino e inscrições no corpo (de cortes de cabelo a piercings) que destoariam em outras salas de espetáculo do evento, como, por exemplo, a cena free jazz de Cecil Taylor. Outra coisa: tive a impressão de que aquela cena específica, com artistas e público, poderia estar acontecendo em qualquer lugar do mundo.

Enquanto pensava, fascinada com o entorno, que a apresentação dos artistas seria incapaz de suplantar a da platéia, eis que Björk irrompe no palco com uma grande comitiva de músicos e com todas as bizarrices possíveis relativas a sons, cores, coreografias, figurinos e outros elementos das artes cênicas, como flâmulas estampadas com animais reais e do bestiário medieval. A música triunfal da entrada foi também surpreendente, contrariando a minha expectativa de que os sons manipulados eletronicamente seriam de agora em diante absolutamente previsíveis. Além dos instrumentos virtuais, utilizavam-se também trombones, tubas e trompas (com um efeito visual que remetia à antigüidade) de maneira inusitada, como se rememorassem tradições inventadas. E Björk é talentosa o suficiente para fazer com que o passado fake nos pareça familiar. Em um determinado momento do show, por exemplo, em que a letra falava de nomadismos — a canção Wanderlust —, os instrumentos metálicos de sopro me lembraram as chamadas sonoras de navios (que, aliás, não me são nada familiares).

Björk dançou durante todo o show. E nada é mais significativo da indefinição temporal que ela promove que a sua dança, a qual às vezes nos remetia a uma certa noção de passado, outras à de um futuro com excesso de informações (ao contrário do futurismo clean que grassou no cinema dos anos anos 50, 60 e 70) e ao mesmo tempo maquinal (que lembra o Casanova de Fellini, que faz sexo como quem fabrica objetos em série) e outras vezes à idéia de um tribalismo atemporal. Esse aspecto fora do tempo converge com a concepção de José Miguel Wisnik, em O som e o sentido (São Paulo, Companhia das Letras, 1999), de “mundo modal”, referente a tradições indígenas, orientais e ocidentais pré-capitalistas, em que a música é vivida nas experiências rituais do sagrado.

 

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº18: download PDF

 

 






 

 


 

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