Desde a edição passada , o plástico bolha está propondo sempre desafios para os amantes da poesia . Nesta edição, o desafio é escrever um poema sobre um objeto: o sabonete. Vejamos a seguir os poemas que recebemos. Para a próxima edição, o objeto será “a amêndoa”. Todos estão convidados a trovar o fruto da amendoeira e a sua semente, basta mandar seu poema sobre o tema para o e-mail do jornal.
O sabonete
É sedoso e perfumado
Colorido e espumante
Que no banho é tão usado
Na banheira dos amantes
Delicadas aparências
Formas côncavas, oblíquas
Eu só penso em indecências
Saboteio minhas rimas
No banheiro dos solteiros
Ele vive tão sozinho
E só tem de companheiro
Um temível pentelhinho.
Paulo Henrique Motta
Ex-puma
opaco transpiro
grudado às fendas do cárcere
suor glicerina
Luiz Coelho
Plantei um alfinete
Com a cabecinha verde
Na ponta de um sabonete.
Fiz um barco branco, lindo!
Mas ele afundou na banheira.
Isabel Diegues
Mon ephebo
Quando seu Phebo escorregou
e você se abaixou
suado e docemente constrangido
foi o início do nosso amor.
Agora, só Lux (úria).
Barbara Hansen
sob a teia leitosa,
cremosa de filetes,
ressecado do banho
de ontem, o sabonete.
Lúcia Cordeiro
À primeira vista são aromas de brisa.
Prometem-se cicatrizantes, adstrigetes,
refrescantes, hidratantes.
Vêm com rótulo: “íntimo”,
e levo um pra casa. Logo
percebo que arde aos olhos.
E desaparece aos poucos.
Tento apanhá-lo, mas,
escorregadio, foge pelo ralo,
levando embora meus resíduos.
Me deixa nua, espumando,
e ele desmanchado, imóvel.
Enfim: “Desinfeta!”
Antonia Ratto
Sabonete
Deixa-me cair de alturas imensas no chão num emaranhado de pêlos
[molhados e nojentos
arrastam-me por suas peles a minha pele que se renova todo dia até me
[parecer
morrendo como tudo que morre a todo tempo nessa ingrata forma de
[viver
quadrado e aos poucos me distanciando em espumas de sofrimentos
cansado dos sovacos das unhas das melecas dos pés fedorentos
suo o insulto do sulco de sepulcro das soltas sujeiras a descer
escorregando com o meu contato com as partes a esconder
quando se não pode mostrar a quaisquer ventos
empoeirados a jogar em mim toda a solução
oh por que não sou a molécula do músculo
que fosse pelo menos um líquido sabão
deus por que nasci um corpúsculo
que jamais morre na mão
vive minúsculo
Gustavo Paes