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[Quando retiro os óculos do rosto]

Quando retiro os óculos do rosto
espio, atenta, toda a cercania.
Então, o mundo se revela exposto
à vaga luz dos dez graus de miopia:

 

percebo as coisas pelo que suponho.
Assim, a mesa não é só uma mesa,
assim meu corpo se refaz em sonho,
sem nem saber se estou liberta ou presa.

 

Meu Deus, duvido tanto do que vejo,
quanto confio na vida que pressinto!

 

As impressões me dão um tênue beijo
e me conduzem pelo labirinto
da solidão de quem não vê direito.

 

No entanto, sei: somente ali eu pinto
(com os pincéis lavados em meu peito,
e o carmesim de um coração faminto)

 

a tela desse meu olhar estreito,
e nela, tudo aquilo quanto sinto.

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº17: download PDF

 

 






 

 


 

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