Quando eu, autora, virei meu próprio texto ou Quando o feitiço virou contra o feiticeiro ou Coisa parecida...
Tem gente que diz que escreve para se disfarçar, assim como o ator atua para usar diversas máscaras...será mesmo? Mostrei um texto meu a uma analista. Preciso dizer que ela é a minha analista? Acho que talvez faça toda a diferença. A experiência foi curiosa porque não me preocupei muito com o que minha analista ia pensar do texto que escrevi, mas sim com o que ela iria encontrar dentro dele. Que vestígios estariam ali escondidos? Sabia que ela leria o texto procurando alguma coisa sobre mim, alguma patologia emocional, alguma denúncia ou confissão; por isso me senti duplamente exposta – o que será que eu entreguei? Será que deixei escapar alguma coisa que, na verdade, queria disfarçar? Por que será que escrevo, afinal? Mas perguntas sem respostas terão de ficar pra outra hora.
O que quero discutir aqui é o lugar incomum que minha analista assumiu ao se tornar, literalmente, leitora de sua paciente. Num pedaço de texto que muito provavelmente revelaria apenas uma sombra de sua autora para um leitor comum, a analista encontrou numa só frase, uma resposta possível para as minhas noites sem sonhos. O que acontece quando conhecemos intimamente o autor ? Será que realmente podemos nos distanciar daquilo que escrevemos? O texto em si, as escolhas, as temáticas, as palavras, tudo (para um analista especialmente, creio eu) é testemunho de uma identidade, tudo é definidor. Para minha analista, pouco importaram as figuras de linguagem, os efeitos sonoros, as intertextualidades. O poeta era eu, e eu estava me entregando, me mostrando por entre os espaços das palavras e também nas próprias palavras. A analista ignorou o eu lírico – para ela, só havia a mim. E ela quis saber tudo. Quis saber se o guarda-chuva vermelho existia. Confirmou que eu, realmente, sempre suspiro. Perguntou se, de fato, eu não como suspiros. Perguntou se o barulho era a voz da minha mãe me dizendo as coisas que eu não queria ouvir...
Fui embora com uma triste sensação de derrota, que não sei bem explicar. Acho que foi porque de repente meu texto se tornou revelador demais, óbvio demais, quase sem graça. Minha leitora-analista não tomou o texto para si; ela foi descascando, decifrando, limpando, podando...enquanto eu queria só que ela lesse, pensasse e, se possível, gostasse.