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Ana Paula Kiffer
Professora de Literatura da PUC-Rio


–Professora, existe uma interpretação correta?

–Não, mas errada existe!

Como “interpretar” esse diálogo, de tom levemente absurdo, mas indicador profundo das angústias que habitam, sim, os estudantes de Letras hoje?

Não sejamos ingênuos, não só os alunos sofrem dessa angústia. Nós, professores, a vivemos a cada texto lido em sala de aula, posto que já não temos mais “a leitura correta” a oferecer.

Ainda ontem Ana Cristina César (leiam! está em seus Escritos do Rio, e o texto chama-se ironicamente “Os professores contra a parede”) falava, neste mesmo campus, de “uma certa ditadura teórica”, falava não contra a teoria, bem entendido, mas contra “a teoria correta”, aquela à qual o professor se filiava e impunha, “tentando eroticamente a turma, como um sultão sobre seu harém”. Duas grandes lições, só para começar: já nos distanciamos desse texto da poeta e constatamos a falência dos grandes sistemas de pensamento que indiciavam as leituras corretas, respondendo, por conseguinte, à primeira parte do diálogo ‘absurdo’. Mas não perpetuemos o equívoco de achar que, porque enterramos as escolas e os “ismos”, devemos nos esquecer dos autores e, sobretudo, dos textos que a elas deram origem. Ao contrário, torna-se fundamental lê-los agora mais do que nunca, libertos de seus automatismos escolares. Na esteira da cantora direi: “Vamos comer Marx, vamos comer Freud...”

Mas o texto de Ana C vai mais longe e nos faz constatar a íntima relação entre o saber, o poder e o corpo. Mesmo que Ana C indicasse um quadro bastante específico (professores majoritariamente homens e turmas formadas majoritariamente de mulheres), ela apontava, de modo lapidar, para aquilo que Foucault desenvolveu em sua História da Sexualidade (leiam!!!). Que o poder não é algo abstrato, distante, restrito aos centros e cargos. Ao contrário, ele se exerce desde o mais ínfimo contato humano, sobre a pele, entranhando nos corpos. Desse modo, os discursos do saber (aparentemente neutros) mantêm íntima relação com os desejos mais recônditos. Ora, mesmo que o perfil sociológico do curso de Letras tenha mudado (estaríamos hoje finalmente mais próximos do “matriarcado de Pindorama”?), e que, por conseguinte, as relações de poder tenham se transformado, não significa que ele não se exerça e, muito menos, que saber e corpo não se entrelacem. Um dos entrelaçamentos possíveis é o que chamarei de “paixão interpretativa”, doença que sofre ou deveria sofrer todo leitor/crítico. Afinal, ainda nos falta responder à segunda parte do diálogo, entendida a inexistência da leitura/interpretação correta, falta entender a existência da “errada”. Dito de modo mais polido: os limites para o que se brada ser o reino livre, único e universal da “MINHA leitura”!!! É óbvio que poderíamos responder a isso enumerando um certo número de exigências para o exercício interpretativo, tais como: conhecer o contexto da obra, a sociedade que a leu e que a comentou, as críticas mais importantes a respeito do autor ou da obra diferençando suas escolas, as distintas vertentes teóricas em jogo, etc. Mas, apesar de ser fundamental poder conhecer esses itens todos, algo ainda se tece noutro plano. Muitas vezes, uma leitura não cumpre nenhuma das exigências e consegue se aproximar sensivelmente do texto, produzindo uma crítica pertinente, criativa, iluminadora. Outras vezes, cumpre-se item por item e se produz uma crítica meramente burocrática, onde faltou justo uma pitada daquela doença do leitor...

A doença do crítico/leitor/escritor ou escrevente (escolham o termo) é aquela que faz com que algo nele se transporte em bloco para as perguntas da infância: “Por quê?”, “Como?”, “O que é isso?” Naquilo em que essas perguntas são o desvelar de um mundo, em sua simplicidade e em seu mistério. A paixão interpretativa faz, então, com que os sentidos instituídos e as imagens fixadas se movam, a paixão viola, inflama e insufla de ar, fazendo com que as letras se mexam, como os assombros das palavras de Guimarães Rosa, ou o maravilhamento daquelas de Manuel de Barros, ou mesmo a secura cortante daquelas do velho Graça e tantos, tantos outros. O movimento é ele mesmo involuntário — como toda paixão irresistível — e começa por um toque leve mas febril dos dedos sobre o plástico (papel) e só se completa com o estalar, estourar da bolha (letra). Só se completa quando o ar se liberta da bolha / letra! O estal-ar é o limite da “minha leitura”!

–Eta professora, tá viajando?

Estou dizendo que a experiência literária propiciaria experimentar coisas, mundos, afetos diferentes daqueles que vivemos e que nos constituem como uma identidade ambulante. Seria uma experiência provocadora de um “sair de si mesmo”. Isso parece pouco, mas é muito, no interior de uma cultura que se ergue a partir da certeza e veracidade nas experiências que encontram origem e centro justo num “si mesmo” que as sustente! Caberia então ao leitor/crítico, antes de mais nada, dar crédito a essa experiência literária. Saber, portanto, que a literatura pensa. Que não é ele o centro emissor de uma razão sobre a literatura (encerrando-a no mundo perdido das emoções...) e, a partir daí, buscar se aproximar do específico dessa experiência literária que é justo o que nos conecta com um fora, o ar ao sair da bolha, estalAR!

Nessa perspectiva a leitura mais pessoal é aquela cunhada no seio da “despessoa” (termo de Marguerite Duras). Paradoxo da leitura que faz com que um limite se interponha ao “meu”, ao “minha” (exagero de um mundo de propriedades), e que um crivo se mantenha em proveito desse múltiplo que é a palavra solta no mundo, que é a confirmação mesma de que outro mundo é possível.

Registro aqui meu carinho,

Parabenizo o coletivo bolha,

E um beijo da

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº17: download PDF

 

 






 

 


 

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