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Nastassja Saramago de A. Pugliese


Bendito seja o Benedito, de Spinoza

 

Dizem que temos sorte por vivermos em uma época em que a filosofia é considerada um trabalho inofensivo. No outono de 1676, Benedito de Spinoza tinha motivos suficientes para temer por sua própria vida. Um de seus amigos tinha sido executado cruelmente não fazia muito tempo, e outro, morrera na prisão. Spinoza, “o judeu ateu”, era “o homem mais ímpio e mais perigoso de todo o século”.

Ele vivia na Holanda, numa casa de tijolos vermelhos a beira do canal Paviljoensgracht, numa cidade povoada de moinhos de vento. Seus amigos e os curiosos que faziam visitas diziam ver nele algo profundamente enigmático e o descreviam como possuidor de uma personalidade que misturava estranhamente cuidado, coragem, modéstia e arrogância. Aparentava uma frieza lógica e tinha uma força apaixonadamente revolucionária. Ele era um herege com percepções de um verdadeiro beato, era um santo sem religião. Mas, apesar de seu carisma, Spinoza tinha uma facilidade tremenda de fazer inimigos.

Com sete anos de idade, no ano da morte de sua mãe, Spinoza entrou na escola judaica, onde teve uma educação tão profunda quanto estreita. Memorizava a Bíblia, estudava hebreu, aprendia sobre os costumes judaicos. Ele era um estudante excepcionalmente dotado em suas capacidades intelectuais, e logo atraiu a atenção dos líderes da comunidade, principalmente, de Saul Morteira, rabino mais consagrado de Amsterdam. Morteira via Spinoza como o pupilo que, um dia, herdaria seu cargo. Mas o pequeno estudante não procurava um mestre. Decidido a ler a Bíblia por conta própria, passou a não sentir mais a necessidade de ouvir as interpretações de Morteira. Spinoza, depois de ter afirmado publicamente que as escrituras tinham intenção não de educar, mas de fazer os homens fiéis e obedientes ao poder das autoridades religiosas, perdeu não só a admiração de Morteira como também ganhou muitos adversários. Ele afirmava sem balbucios que Deus era um ser corpóreo, e que não havia nada na Bíblia provando o contrário.

No dia 27 de julho de 1656, na sinagoga de Amsterdam era lida sua sentença de excomunhão: “...sabendo das diabólicas opiniões de Spinoza, depois de termos tentado, sem sucesso, livrá-lo deste caminho do mal... nós decidimos que Spinoza deve ser excomungado e expulso do povo de Israel. Ele deve ser maldito de dia, e de noite. Maldito quando se deita e quando se levanta... inflame-se o furor de Adonai contra esse homem...advertindo que ninguém pode falar, nem escrever a ele, nem conceder-lhe nenhum favor. Não se pode estar, dele, uma distância menor do que quatro côvados, nem se pode ler papel algum escrito por ele.” Spinoza tinha, neste dia, 23 anos e uma desculpa a mais para ir na direção de sua própria liberdade de pensar.

Tamanha era a pressão contra o filósofo que, um dia, um judeu fanático tenta esfaqueá-lo. Spinoza sai ileso do ataque e com um corte nas costas de seu paletó. Ardiloso, ele continua a usar a vestimenta, mesmo rasgada, e quando o perguntam por que não o costura, responde acidamente: é para que vocês possam ver como é perigoso pensar... Em 1661, ele se muda para Rijnsburg e começa a polir lentes para sobreviver. Torna-se famoso por esse trabalho, que o consagrou como capaz de produzir, nas lentes, uma geometria perfeita. Quando seu pai faleceu, Benedito deixou toda herança para a irmã, tendo pegado para si apenas uma cama. Ele parecia não ter avareza nem desejo de riqueza e honrarias. Era movido por suas próprias regras de vida e pelo desejo intenso de pensar.

As cartas entre Spinoza e seus correspondentes formavam os ciclos clandestinos. Elas eram fechadas com a cera, onde se podia ler a marca do carimbo “cuidado” e as iniciais de Spinoza. Nelas estavam sendo escritos conceitos revolucionários para a história da filosofia e do mundo. Dentre os correspondentes estavam o filósofo Leibniz, o cientista Huygens, o secretário da Royal Society de Londres – Henrich Oldenburg, e o médico Lodewijik Meijer, grandes intelectuais do século XVII.

Além de escrever cartas e fumar cachimbo, um dos passatempos prediletos de Spinoza era colocar duas aranhas num vaso e vê-las lutarem, brigando até a morte. Brincadeira sarcástica que mostrava seu sangue frio frente à finitude e ao fatalismo das leis naturais. Spinoza também arriscava na pintura. Os últimos anos de sua vida foram vividos em Haia, na casa do pintor Hendrik van der Spyck. Talvez inspirado pelo ambiente, nessa época Spinoza pintou uma série de croquis representando um personagem da lenda de Masaniello que conta a história de Tommaso, um pescador italiano que é assassinado na rua enquanto lutava numa revolução. Colerus, responsável pela biografia do filósofo, conta que os desenhos reproduziam a iconografia da lenda, com redes de pesca e elementos deste tipo, mas que o rosto não era o de Tommaso, mas de Spinoza ele mesmo – era uma série de auto-retratos.

Na tarde do dia 21 de fevereiro de 1677, enquanto Hendrik vai com sua esposa à igreja, Spinoza recebe a visita de um médico desconhecido. Na volta da missa, o casal encontra-o sozinho, morto. O “doutor”, que alguns historiadores pensavam ser Lodewijk Meyer, amigo de Spinoza, era Schüller - indivíduo mandado à Haia por Leibniz. As análises das cartas entre Leibniz e Schüller denunciam o médico, que tinha conhecimentos de alquimia. Schüller escreve a Leibniz contando que após ter vasculhado todos os papéis de Spinoza, destruíra alguns, mas não fora capaz de encontrar o manuscrito de suas obras. Apesar das evidências, elas não passam de especulações e a única coisa que se sabe é o fato de Leibniz ter tido ciência de que Schüller iria visitar Spinoza que, por coincidência ou não, morrera no dia da visita. Spinoza, que sabia dos perigos que corria, havia escrito um testamento onde deixava uma escrivaninha de madeira, trancada com chave, para um amigo. O móvel então, depois de atravessar silenciosamente os canais de Amsterdam, chegou às mãos do editor.

Alguns anos depois, celebra-se o pensamento de Benedito, que sai da clandestinidade. Inclusive Hegel chega a dizer que “ser Spinozista é o ponto de partida essencial para toda filosofia.” E, depois que liberdade de expressão já tinha sido conquistada como um direito fundamental, Einstein, quando o perguntam sobre sua fé, responde: “eu acredito no Deus de Spinoza.” Eternizando-se junto à filosofia na luta por pensar, a história de vida de Spinoza é uma herança preciosa. Herança dele, que viveu com três paletós, dois pares de sapato, sete camisas, um retrato, um pequeno jogo de xadrez, um travesseiro, uma manta e cento e sessenta livros.

 


Nastassja de Saramago A. Pugliese
Aluna da Pós-Graduação de Filosofia da PUC-Rio

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº16: download PDF

 

 






 

 


 

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