Cadastre-se para receber atualizações do plástico bolha via e-mail:

 

 


Sonhando em Carmel (Carmel Reverie)

Ricardo Sternberg (tradução de Marilena Moraes)

 

No primeiro semestre deste ano, o poeta Ricardo Sternberg (carioca que se mudou para os Estados Unidos com a família aos quinze anos) fez uma visita à PUC-Rio, apresentando uma pequena palestra para os alunos da Oficina de Poesia do professor Paulo Henriques Britto.

Bacharel em literatura inglesa pela University of California, Riverside, fez mestrado e doutorado em literatura comparada na UCLA. Seus poemas já foram publicados em revistas como The Paris Review, The Nation, Poetry (Chicago), Descant, American Poetry Review, The Virginia Quarterly e Ploughshares. Publicou The invention of honey (1990, reeditado em 1996), Map of dreams (1996) e Bamboo church (2003, reeditado em 2006).

Ricardo Sternberg vive no Canadá desde 1979, onde dá aulas de literatura portuguesa e brasileira na Universidade de Toronto. Escreve quase exclusivamente em inglês, mas não nega a influência de Bandeira, Drummond e Cabral. Sternberg enviou ao Plástico Bolha alguns poemas, que traduzimos com a supervisão do professor Paulo Henriques Britto. Abaixo, o primeiro deles.



Sonhando em Carmel

Ele pensa em Madame Bovary
Ao tirar-lhe as botas enquanto
a carruagem percorre os campos
e ela, no escurinho das cortinas,
sai do casamento direto
para os braços do amante, Leon,
e ele então pensa então em Noé,
nos casais entrando na arca,
que ainda cheirava a madeira recém-cortada
e depois relembra que eles, um casal recém-formado,
entraram no elevador, dignos,
então pararam entre dois andares e foram às nuvens,
como cantava Sly & The Family Stone,
e foram fundo ali mesmo, indiferentes,
primeiro à campainha que não parava de tocar e
depois às batidas violentas em vários andares e,
finalmente, às ameaças de chamar a polícia,
o que se revelou desnecessário,
pois, por milagre, o Otis começou a descer
e eles saíram pelo tapete vermelho da portaria,
de mãos dadas, e cumprimentaram solenemente o porteiro,
e quando um leão-marinho gritou e o acordou do
sonho, ele só conseguia pensar, torturado,
como eram ágeis seus dedos, e rija a carne dela.


Carmel Reverie

He is thinking of Madame Bovary
Unlacing her boots as the carriage
Wanders over the countryside
And she, in the curtains-drawn dark,
Moves away from her marriage
Into the arms of her lover, Leon,
And then he is thinking of Noah
How those pairs entered the ark
Still fragrant with the resin
Of freshly hewn wood
And next how they, a newly minted pair,
Entered the lift, composed,
Then stopped the car between floors
And as Sly of the Family Stone
Sang he would take them higher,
Had a good go at it, oblivious
First to the buzzer that rang and rang,
Then the pounding on several floors
And finally, threats to call the police,
Which, in the end, proved unnecessary
For, miraculously, the Otis began its descent
And they stepped out on the lobby’s
Red carpet, bowed deeply to the concierge,
Then walked out hand in hand and
When a sea lion barked and brought him out
Of this reverie all he could think was
But what torture it is now to remember
His nimble fingers, her firm flesh.

 

 

 

 

 

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº15: download PDF

 

 






 

 


 

Copyright - Jornal Plástico Bolha - 2008 - E-mail: redacao@jornalplasticobolha.com.br