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Eucanaã Ferraz

 

PRINCÍPIOS DE CRÍTICA E TEORIA LITERÁRIA

 

Professor, o poeta. Não, o sujeito poético. Professor, o eu lírico. Não, o poeta. O senhor sabe? Quem sabe? Como é que eu fico sabendo? Ninguém sabe? O poema quer dizer que. Não, entendi, o poema já disse. O poema é isto ou aquilo? O poema é isto e aquilo? Isto vai cair na prova? E aquilo? Eu acho que viajei. Não? Eu acho que. Está bem, eu viajei. Como é que o senhor vê tudo isto só neste verso? E pode ver ainda mais? Quando o senhor diz, quando explica, eu vejo. E esta imagem? Isto tem a ver com o romantismo? Isto vai cair na prova? Isto e aquilo, está bem, vou ler. O poeta não quer mudar nada, entendi. E quer mudar tudo. Não entendi. E a inspiração? Porque sim? Como assim? Quem é O Outro? O senhor é O Outro? Eu sou O Outro? Entendi. É para não entender? Entendi. Entendi que não é para entender. Isto vai cair na prova? O ritmo não é medida? O ritmo é a vida? Vida inventada? E a vida vivida? Entendi, isto é autobiográfico. É e não é? Mas como eu vou saber que um poema que não quer ser um poema é um poema? Do que é que os poemas falam? Eles não falam de nada? Entendi. Isto vai cair na prova, pode deixar, vou ler. Vou, sim. Vou ver na bibliografia. O senhor podia dar um exemplo? Não, eu não estava conversando, eu estava falando sobre isto. Não. Não. O poema cria imagens, entendi. O senhor estava falando do gênero lírico. O poema faz do leitor uma imagem? Não entendi. Quando o senhor fala, eu entendo. Quando o senhor mostra, eu vejo. Qual vai ser a matéria da prova? A poesia cria outro mundo? É intuição ou experiência? É loucura ou conhecimento? A poesia pode ser filosofia? A filosofia pode ser poesia? É meio complicado. Uma coisa poética é um poema? É confissão? É monólogo? Entendi, o poema não é sagrado. É sagrado? O senhor pode repetir? Não é confissão. Pode ser? Como é que eu vou saber? O senhor sabe? Claro, o senhor sabe. Entendi, o senhor também não sabe. Sabe que não sabe. Isto é saber, não é? Isto é aquilo! Eu não disse que tinha entendido? Drummond. Não, não li. Vou ler. Qual o nome? Eu não consigo viajar no poema como o senhor. Entendi, não é viagem, é interpretação. Eu não consigo interpretar que nem o senhor. Entendi, não é para entender. Não, eu quis dizer que. Eu achei que. E os gregos? Onde fica o “reino das palavras”? O senhor sabe? Entendi, não é para entender completamente, só um pouco. Eu quis dizer que entendi completamente que não se pode entender completamente o poema. Então, por que o nome é ciência da literatura? Li, eu adoro. A crítica não gosta? Por quê? Eu gosto. Não, não li. Deve ser, a crítica gosta. Quem é a crítica? O senhor é a crítica? Entendi. Está na pasta? Imagem, entendi. Metáfora, entendi. Símbolo, entendi. Mito, entendi. Wirgínia Wolf? Conheço. Ah, Wölfflin! Não, não conheço. Dabliu, ó, trema, dois efes. Acho que já ouvi falar. O senhor leu todos esses livros? Entendi. Puxa vida. Está na xerox? O senhor pode repetir? O som e o metro devem ser estudados como elementos da totalidade do poema, e não isolados do sujeito. Ah, desculpe, e não isolados de sentido. Pois é, fica outra coisa, completamente diferente. Terça-feira é feriado? Entendi tudo. Tudinho. Só uma coisa: o que é, afinal, o poema? Entendi, o senhor também não sabe.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº15: download PDF

 

 






 

 


 

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