Ao me dar conta do pecado que cometi, saí correndo por largos e infinitos corredores. Neles ecoavam melodias tristes, palavras em vão e juras de amor. Percorri todas as alas e corredores daquele castelo, mas, dentre tudo que suas poderosas paredes ecoavam, não havia sequer um pecado, um segredo mortal que alguém tivesse deixado escapar. Sem saber o que fazer, cruzei a porta principal, os jardins e finalmente os portões. Pedi aos deuses um modo de guardar meu segredo em algum lugar que não fosse meu coração, e caminhei até a beira do penhasco, lugar alto que me mostrava tudo que a luz e a escuridão podiam alcançar. Pesava em mim a presença de tão mórbido segredo. A quem eu contaria? Quem me perdoaria? Toda aquela imensidão, aquele mar e aquele céu... Nada daquilo me acalmava. E se eu gritasse, talvez? Quem sabe com um grito forte — como aqueles que eu ouvia em batalhas, em outras eras, outras vidas —, o segredo pudesse se dissipar em meio ao azul? Respirei fundo e me preparava para libertar meu segredo com toda fúria, quando vi brilhar na areia, lá embaixo na praia, um ponto branco.
Desci pelas pedras e notei que as ondas não me queriam por perto. Elas me acertavam, me atacavam com uma cólera decidida, conheciam a seu modo meu exato objetivo. Não hesitei. Segui meu caminho em direção ao ponto que me iluminava, que me atraía e um calafrio agradável me tomou conta ao ver que o ponto, pálido, nada mais era do que uma singela e encantadora concha. Por mais simples que fosse, ela sabia que, ao longo de toda a costa, apenas ela estava ao alcance de alguém. Sim, ela era a única concha de toda a costa, sozinha e vaidosa, esquecida em meio àquela enorme faixa escura de areia esverdeada. Não havia uma estrela no céu, não havia testemunhas. O brilho da concha era a única luz da praia, a única luz existente em meu reino e eu, pecador tirano, estava a um passo de sua pureza. Teria alguma criatura visto tal pedaço de luz e o ignorado? Que sereia teria deixado ali, em areias tão escuras, tal artefato? Por quê? Perguntas tolas surgiam em minha mente. As ondas transpareciam todo o seu desespero diante da cena. Eu podia ouvir seus gritos, suas súplicas.
Nenhuma onda, nenhum trovão — ou Deus — foi capaz de me impedir. Tomei a concha em minhas mãos, trazendo a mesma à altura de minha boca. Assim, contei meu pesado segredo àquele ser puro que, até então, desconhecia a escuridão que o homem reprime em si. Senti a angústia e a tristeza tomarem conta das ondas, do vento e do céu, que recolheu seus trovões. Já estava feito: meu segredo não se encontrava mais em mim e a concha estava cinza e seca, talvez morta. Voltei a mim ao perceber que um vento seco lançou a concha em direção às ondas, levando-a para longe dali, com seu novo segredo — ou sina — de volta às suas sereias. Fui covarde, fui tirano, fui egoísta... Fui, da pior maneira, humano. E após três luas, mortas e frias de tristeza, pude avistar três sereias... Estiradas sobre a antiga areia escura. Corpos sutis que, em algum momento, tentaram ouvir um segredo que ecoava mar adentro.