A lógica do poema e a lógica da canção

Francisco Bosco é ensaísta e letrista (entre seus parceiros estão João Bosco, Fred Martins, Guinga, Hamilton de Holanda, entre outros), autor de Banalogias (a ser lançado em breve, pela Editora Objetiva), Dorival Caymmi (Publifolha, 2006) e Da Amizade (7Letras, 2003), editor da revista Cultura Brasileira Contemporânea, publicação da Biblioteca Nacional. É Mestre e Doutorando em Teoria Literária pela UFRJ. No recém-fundado POP – Pólo de Pensamento Contemporâneo –, dá uma oficina de letras de música, com Fred Martins.
Você é considerado “um letrista de mão-cheia”. Isso se deve à sua experiência com poesia? Qual a sua formação?
No meu caso, particularmente, o fato de ter escrito poesia durante anos me ajudou, sim. Sobretudo porque eu praticava bastante as formas fixas, e uma música que um letrista recebe, a fim de nela colocar uma letra, nada mais é do que uma “super forma fixa”: uma estrutura prévia que detém todas as contraintes da forma fixa poética (número de versos, metrificação, uma quase exigência de rimas que vem da tradição) e ainda outras mais (distribuição prévia de todas as sílabas tônicas e átonas, modulações, mudanças de intensidade, etc.). Por outro lado, é importante para o letrista egresso da poesia, como foi o meu caso, que conheça bem a tradição da música popular brasileira, e que saiba, intuitiva ou conscientemente, que a lógica da canção é fundamentalmente diversa daquela do poema.
Todo poema pode ser musicado?
Sim, a princípio todo poema pode ser musicado. O problema é que um poema é uma estrutura fechada, que almeja seu próprio acabamento, enquanto que a letra de música é uma estrutura aberta, que almeja o acabamento da canção, por intermédio de uma relação que estabelece com a música. Essa diferença estrutural é o que, se por um lado garante que todo poema possa ser musicado, por outro não garante que um excelente poema seja uma excelente letra de música.
Há como procurar a palavra, a forma certa para cada canção?
Essa é a tarefa de todo letrista, mas, como tudo o que diz respeito à arte moderna, nesse caso não há regra, não há norma, não há diretriz que se possa estabelecer de antemão para essa procura.
Seu pai, João Bosco, foi seu primeiro parceiro? Qual o legado da geração a que ele pertence?
Pode-se dizer que sim. À exceção de poucas 7 canções que fizera com um parceiro, sem qualquer pretensão pública, estreei como letrista ao lado de meu pai, no disco “As mil e uma aldeias”, de 1997. Penso que o legado da geração dele é vasto, mas destaco o seguinte aspecto: uma concepção total da canção. Refiro-me a uma canção que explora, sofisticada e simultaneamente, todos os níveis de que é feita: melódico, harmônico, rítmico, verbal etc. É completamente diferente, por exemplo, do rap, em que praticamente não há melodia ou harmonia, e o ritmo tende a uma monotonia deliberada. Mas o rap não é menos canção, nem menos interessante por isso; apenas deve ser avaliado por meio de outros fatores.
Ser filho de João Bosco é também um ônus? Quais as cobranças e expectativas quanto a isso?
A meu ver, ser filho de uma pessoa pública é, quanto a uma eventual trajetória pública do filho, algo que lhe dá oportunidades que outros não teriam, e lhe exige um desempenho que de outros não exigiria.
Como você trabalha com seus parceiros?
Em geral, recebo as músicas e lhes justaponho a letra. Prefiro assim. Às vezes tento escrever uma “letra” antes da música, mas quase sempre desisto no meio, ou, mesmo prosseguindo, sinto que não terminei, que não posso terminar, que não se pode terminar. Penso que não existe letra sem música, e por isso considero esse gênero – “letra” antes da música, “letra” para ser musicada – uma forma impossível, algo cuja eventual realização não desmente seu impasse estrutural. É como mirar num alvo que não existe.
Você faz letras que falam de amor (De mamadeira, Eu não sei seu nome inteiro) e outras que são verdadeiras crônicas do cotidiano (Cinema cidade, Malabaristas do sinal vermelho).Como surgem os temas para suas letras?
Valéry costumava dizer que “a forma custa caro”. É verdade, mas, sem querer parodiar o slogan do cartão de crédito, “a idéia não tem preço”. A idéia – o que entendo que você chama de “tema” – é sempre o imponderável. A fim de que ela nos dê o ar de sua graça, penso que só se pode ficar atento, como disse o poeta Paul Celan: “Poemas são presentes para os atentos”.
Como são as oficinas de letra de música? De que modo é possível aprender a ser letrista?
Do mesmo modo como se aprende a ser escritor, pintor, compositor etc. Ensinar alguém a ser letrista é tão impossível quanto nesses outros casos. O que fazemos, eu e Fred Martins, é oferecer instrumentos – conceituais, técnicos, estéticos – para que cada um possa empregá-los do modo mais adequado aos seus interesses artísticos. A gente disponibiliza materiais, dispara desejos, desmonta máquinas de criação – mas o resto, que é quase tudo, é com o aluno. Ensinar é impossível, mas aprender é possível.