O final do inverno, quase primavera na verdade, convidava ao que os franceses chamam de flâner, simplesmente se promener sans hâte, au hasard, en s’abandonnant à l’impression et au spectacle du moment. Ainda tinha três dias de viagem, já esgotara a cota de museus e monumentos, e estava num ponto da vida em que sabia que o melhor de uma cidade está nas ruas, seus personagens e tipos — coisas que os guias não mostram. Saltou do metrô, ajeitou a boina. Foi em direção à Place des Vosges, o coração do Marais. Na frente de uma pequena casa, um jardim inesperado — insolite — diriam os locais... Eram amores-perfeitos, manchadinhos em tons de rosa, amarelo, roxo e marrom. Florezinhas apressadas, desafiando o frio, num tapete multicor, protegido por uma grade. Tirou a luva, pegou a máquina do bolso da capa. Passou o braço entre as barras de metal. Clique! 25X25 num porta-retratos barato. Mas isso não tem importância. Foi um bom dia de exercício da chamada douce inaction. Fazia 15 graus. Pra que mais?