O que se pensa não é o que se canta.
Difícil sustentar um raciocínio
com a rima atravessada na garganta.
Mesmo o maior esforço não adianta:
da sensação à idéia há um declínio,
e o que se pensa não é o que se canta.
Difícil, sim. E é por isso que encanta.
Há que sentir — e aí está o fascínio —
com a rima atravessada na garganta.
Apenas isso justifica tanta
dedicação, tanto autodomínio,
se o que se pensa não é o que se canta,
mesmo porquê (constatação que espanta
qualquer espírito mais apolíneo)
a rima atravessada na garganta
é o trambolho que menos se agiganta
neste percurso nada retilíneo,
ao fim do qual se pensa o que se canta,
depois que a rima atravessa a garganta.
Paulo Henriques Britto é tradutor e professor, autor de Liturgia da matéria (1982), Mínima lírica (1989), Trovar Claro (1997) e Macau (2003, Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira). Ossos do Ofício estará no livro Tarde, que será lançado em agosto.