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Fred Coelho e Mauro Gaspar


INVASORES DE CORPOS: MANIFESTO SAMPLER

É PRECISO NASCER


Mais que um. É preciso ser sempre mais que um para falar, é preciso que haja várias vozes.

Que importa quem fala?

A verdadeira atividade literária não pode ter a pretensão de desenrolar-se dentro de molduras. A atuação literária significativa só pode instituir-se em rigorosa alternância de agir e escrever.

A crítica tem que falar na língua dos artistas. Pois os conceitos do cenáculo são senhas. E somente nas senhas soa o grito de batalha.

O escritor não diz mais do que pensa (e pensa mais do que diz).

O crítico não é o intérprete de épocas artísticas passadas. O crítico é um estrategista na batalha da literatura.

O leitor-ouvinte está entregue aos seus próprios recursos.


FOTOGRAMA I:
CORTAR O CORDÃO UMBILICAL

 

Escrever não se aloja em si mesmo.

Não ponho aspas. As palavras são minhas. Não importa quem fala. Sou quem pode dizer o que disse. Fui eu quem escreveu. Agora abro as comportas e deixo que elas, as palavras, as vozes, se espichem, se multipliquem, se fortaleçam. Aglutinação pela dispersão. Ele(s) redige(m), mas sou quem escreve. Um corpo em disponibilidade para si e para o outro. Todo es de todos, a palavra é coletiva e é anônima.

Nosso prazer não tem sido mais do que o ossário natal do tempo morto. Pensar e escrever novamente como uma violência e um prazer. Ser feliz significa poder tomar consciência de si mesmo sem susto.

A ESTÉTICA SAMPLER nasce da física. Somos movidos por impulsos elétricos espúrios provenientes de atividade elétrica na atmosfera terrestre.

A escrita sampler é uma OPERAÇÃO. Não é um projeto, mas a realização constante dessa operação.

O que "é incorporado" vira ruína junto com "o que já existe". Só sobra o abismo do desgarrado. O novo solto sem referências. Esse é o bom sample: sem pai nem mãe. A escrita como regime errante da letra órfã. O escritor não é mais soberano, é também presa dessa letra órfã que circula. Só uma letra órfã pode pedir uma escrita viva. Pelas mudanças a que se expõe, a escrita sampler adquire uma espécie de desarraigamento crônico: nunca mais se sentirá em casa, em lugar nenhum, permanecerá psicologicamente mutilada. É preciso nascer, sair do plasma que cobre os corpos invadidos, romper o cordão umbilical. Você abre os olhos: sua mãe está ali, deitada sobre a cama. Seu pai segura o cordão umbilical. Você está no mundo. Bem-vindo! Mas você não está devotado apenas ao que o inédito umbigo circunscreve, o corte do cordão umbilical te lança à perda da pureza, estás liberto da origem, estás liberto do mito. Invadir o corpo do mundo, e ser invadido por ele é o que você faz agora (e para sempre).

Que importa quem fala? A escrita sampler acumula por afeto, pelo que a afeta, tudo aquilo que vê, ouve e experimenta à sua soma.

Quem trabalha com a escrita sampler não é aquele que não tem o que dizer, é aquele que tem coisas demais a dizer, tem vozes demais falando dentro de si, e as expressa musicalmente, como um fluxo, como um processador de linguagens e sensações.

Apropriar para produzir, e não para reproduzir. A escrita sampler como uma forma de "dobrar" a matéria, a referência, o sujeito que existe criar uma nova/outra/diferente subjetivação do texto/música/matéria.

Uma escrita não começa nem conclui, ela se encontra sempre no meio, entre as coisas, inter-ser, intermezzo. Tem como tecido a conjunção ‘e... e... e...’ Há nesta conjunção força suficiente para sacudir e desenraizar o verbo ser. Viajar e se mover a partir do meio, pelo meio, entrar e sair, não começar nem terminar. Instaurar uma lógica do E, reverter a ontologia, destituir o fundamento, anular fim e começo. Uma escrita pragmática. É que o meio não é uma média; ao contrário, é o lugar onde as coisas adquirem velocidade. Entre as coisas designa um movimento transversal que carrega uma escrita e outra. Um "e" que vem em qualquer lugar: antes, no meio, depois, e cria um espaço para si, para fora ou para dentro do corpo invadido. Um estímulo ao que não necessariamente precisa ser estimulado, a não ser aos olhos de quem está ali invadindo, e sendo invadido. Não mais imitação, mas captura de código, mais-valia de código, aumento de valência.

Produzir na abertura de um espaço onde o sujeito que escreve não pára de desaparecer. A busca do esvaziamento do eu. O eu não torna-se mais referência absoluta pois a escrita sampler opera com diversos eus. A escrita torna-se o exercício do eu + 1, do eu somado a outros "eus" que falam – refalando – em seus textos. A escrita sampler esvazia a figura do autor-ego, e seu papel em relação ao discurso, criando um novo jogo de forças e oposições possíveis.

A linguagem não pode mais se deixar prender à teatralidade filosófica do seu objeto. Deve se tornar, também ela, um atentado por fascinação.

Não significa que, daqui para a frente, não haverá forma na arte. Significa apenas que haverá uma nova forma, e que essa forma será de um tipo que admitirá o caos, sem tentar dizer que o caos é na verdade outra coisa. Encontrar uma forma que acomode a desordem: eis a tarefa do artista hoje. As possibilidades analíticas precisam convergir, e não se digladiar.

 

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº11: download PDF

 

 






 

 


 

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