Cadastre-se para receber atualizações do plástico bolha via e-mail:

 

 


CORRUPIO

Um breve ensaio sobre a peça de teatro Frederico García Lorca:
pequeno poema infinito

 

Quando el rio es lento y se cuenta com uma buena bicicleta o caballo si es posible bañarse dos (y hasta três, de acuerdo com las necesidade higiénicas de cada quien) veces en el mísmo rio.
Augusto Monterroso


De uma das 50 nascentes de Granada brota a primeira lágrima. Com o vento, desliza pelo rosto, pelas encostas, ganha força e vira rio de três margens. Ao acariciar cada uma delas a água faz um som diferente - ritmo forte de correnteza. E nós estamos naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais.

É novembro, mas nesta Granada venta nas quatro estações. A brisa refresca quando o menino e a menina loira catam pedrinhas brancas, mas causa frio quando ela precisa ficar nua para lavar sua única roupa. Frio no corpo da menina, no coração do menino, frio no teatro. Todos vestem seus casacos mas a menina não tem o que vestir. Venta; e tudo que não é mais necessário se desfaz. Resta apenas a poesia e o respeito ao que as coisas comunicam sem o auxílio das palavras. Ah menina, você vai ser como sua mãe e seus filhos vão ser como você...
Resta um respeito de criança, de um pobre garoto apaixonado e silencioso que, quase como o maravilhoso Verlaine, tem dentro uma açucena impossível de regar. O rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Ele não pode dar palavras nem água para sua flor. Mas quando o ancinho penetrou o solo seco, abriu caminhos para o ar entrar. E a terra se tornou rarefeita, leve, cheia de poesia. Ali Lorca encontrou a arte.

Façam completo silêncio, paralisem os negócios, garanto que uma flor nasceu. Sua cor não se percebe. Suas pétalas não se abrem. Seu nome não está nos livros.
Ela nasceu do que é suficiente. Garanto que uma flor nasceu: a açucena de Lorca apareceu quando Zé abriu as janelas e ventou no teatro.

 

 

 

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº11: download PDF

 

 






 

 


 

Copyright - Jornal Plástico Bolha - 2008 - E-mail: redacao@jornalplasticobolha.com.br