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O exercício da poesia



 

Adriano Espínola é poeta, ensaísta e professor da UFRJ. Autor de Em trânsito - Táxi/Metrô(1996), Fala, favela (1998), Praia provisória (2006), entre outros, nos concedeu esta entrevista, que é pura poesia

Alguns poetas, como Paulo Henriques Britto, como foi Affonso Romano de Sant’Anna, são professores. O que você falaria sobre o trânsito entre essas duas áreas de atuação?


Na minha juventude eu queria mesmo era ser atleta. Gostava de natação; nadava os quatro estilos: peito, costa, golfinho e nado-livre. Ao voltar de uma viagem aos EUA, fiz o vestibular e me vi com notas para ingressar nos cursos de Direito ou Economia. Mas, no dia da matrícula, dei bobeira; tinha ficado em casa, pela manhã, lendo Ana Karenina. À tarde, descobri que ainda havia vagas para o curso de Letras. Matriculei-me no ato. Um anjo torto disse-me, na ocasião, que eu seria professor, professor de literatura. Como já escrevia meus versos, calculei que, sendo professor e poeta, poderia dar continuidade ao meu sonho adolescente de ser atleta. Veja que, como poeta, continuo praticando os quatro estilos da natação: o lírico, o épico, o dramático e o misto (que corresponde ao medley, em que se combinam os quatro estilos, na prova de 100 ou 200m). E como professor, pendurado no giz e nas palavras, movimentando-me pela sala, continuo me exercitando fisicamente, para depois saltar, aquecido, nas águas da poesia.

É difícil definir a sua poesia, como a de qualquer poeta, se é que se deve definir a obra de alguém. Adriano Espínola é engajado e possui riqueza formal, é épico e lírico, é urbano e bucólico, dentre uma série de outras tensões. Nesse sentido, onde você situaria a sua obra?


É isso que respondi acima. A natação deu-me fôlego e recursos para nadar na piscina, no mar aberto ou num rio. Alguém aí já tentou atravessar um rio, mais ou menos impetuoso, de uma margem a outra? Você nunca chega ao ponto mirado, mas sempre lá na frente, numa terceira margem, não é mesmo? Eu já fiz isso ao atravessar o rio Jaguaribe; não foi fácil. Esse feito deu-me marra para escrever narrativas, poemas em prosa, etc. Quanto ao mar, fui garoto da Praia de Iracema e do Mucuripe. Quando não pegava ondas, ia de uma praia a outra no braço. Creio que foi por isso que adquiri fôlego para escrever os poemas lírico-épicos Táxi e Metrô, atravessando o "marurbano" das grandes cidades. Fui um bom nadador de piscina também (morava vizinho a um clube), em Fortaleza. Com isso, acho que acabei por dominar algumas formas fixas. O barato mesmo era nadar debaixo d’água. O silêncio do mundo e da poesia se encontra aí. Quando você sai das águas (e estamos sempre saindo do silêncio das águas) você enxerga melhor a natureza, o sol, as coisas e o outro, em volta. Daí eu ter escrito os haicais de Trapézio, os poemas coloquiais e urbanos de O lote clandestino, os poemas celebratórios do Beira-Sol e as formas dramáticas do Fala, favela.

Para muitos, sua obra é um exemplo de harmonia entre a tradição e as novas e sempre heterodoxas propostas da poesia contemporânea. Podemos dizer que a sua obra é uma resposta ao cenário atual?


A poesia não tem nada de espiritual, transcendente. Tudo é uma questão de respiração e musculação. Quem quiser se candidatar a poeta, a primeira coisa que recomendo é a prática de um ou de vários esportes até a exaustão, para depois começar a escrever. Rimbaud, por exemplo, era um incansável andarilho. Por isso mesmo, pôde chegar a passos largos ao Inferno, à frente de todo mundo. É preciso adquirir forças para arrastar a tradição até o presente e criar tensões entre as vozes do passado e "as novas e sempre heterodoxas propostas da poesia contemporânea", como você fala. Penso que a minha poesia representa as contradições e aspirações do nosso tempo. Ela é assim diversificada e tensionada, porque a nossa época o é. Também resulta da minha natureza e temperamento dramáticos. Mas como todo projeto individual, mostra-se incompleta, lacunosa, irregular. Me inspiro no teatro barroco, para abrigar muitas vozes e estilos e nunca esquecer, como diria Quevedo, que a nossa vida é comédia e teatro de farsa o mundo todo.

O que você pensa do atual cenário da poesia contemporânea?


Onde? No Brasil, nos EUA ou em alguns países da Europa? Sei que nas regiões mais industrializadas e tecnologicamente avançadas a poesia parece ter se esgotado. Raramente você encontra trabalhos acadêmicos (dissertação ou tese) sobre um poeta ou sobre a poesia de um período. Ou grupos de poetas. Não existem mais. Acho que é em decorrência da poluição e do aquecimento geral do planeta, não é mesmo? As formas mais sensíveis de vida estão ameaçadas. Com o derretimento crescente das geleiras, por exemplo, a reprodução das tartarugas, das algas marinhas e dos poetas se encontra ameaçada. Tenho muita pena das tartarugas. Os poetas que se danem. No Brasil, cultiva-se ainda infelizmente o carvão extinto dessa arte típica do século XIX e, em alguns momentos, do XX. Coisa de país pobre. Acho que os poetas deveriam largar essa forma atrasada de arte e partir para o plantio da cana-de-açúcar. Voltar ao álcool. É a energia do futuro.

Como você vê as críticas à poesia contemporânea, tida como hermética e restrita a um grupo mínimo de leitores?


Pois é. Um dos sinais mais claros da decadência dessa arte é exatamente o seu caráter grupista, fechado. Às vezes, anda metida numa subjetividade inalcançável. Isso revela sem dúvida a sua desimportância social e cultural. O velho Goethe, aliás, nas suas conversas com Eckermann, por volta de 1826, já afirmava que todas as épocas que se encontram em estado de decadência e perversão tendem para a subjetividade. Ao contrário das épocas progressistas, em que saudável é o esforço do mundo interior para o exterior, em que a atenção se volta para o mundo real e objetivo, através de formas criativas e renovadas.

Você é um estudioso de Gregório de Mattos. Podemos dizer que a sua poesia é, à maneira de um "Gregório de hoje", uma tentativa de construir tensões e paradoxos?


Realmente, você disse bem. Minha obra poética até agora é essa tentativa de criar tensões e paradoxos. Tenho ainda na gaveta dois livros, um de haicais & tankas e um outro, de narrativas. Quando estudei o velho Boca do Inferno, em tese defendida em 1999, já havia escrito boa parte da minha obra. Voltei-me para ele certamente por afinidade quanto à diversidade e experimentação constante. Não tenho, contudo, a veia satírica e a espontaneidade de cantador, de um violeiro jocoso e culto, que ele tinha. Foi um caso único na literatura brasileira. Um farsante, um fingidor avant la lettre, o pai barroco de Fernando Pessoa.
Para muitos, inclusive para mim,

Para provisória é uma daquelas obras-primas da poesia brasileira. Você atribui maior importância a Praia provisória, enxerga nesta obra a sua maturidade?


Em primeiro lugar, não sei se se trata de uma obra-prima da literatura brasileira; é generosidade sua. Vejo-a ainda com defeitos. Numa eventual (e talvez improvável) reedição, eu mexeria no desenho de alguns poemas e trocaria algumas seções de lugar. Sei que trabalhei muito, exaustivamente na composição desses poemas, nos últimos sete anos. Foi todo um esforço de concentração melódica dos versos, perpassando temas diversos, que vão do amor à própria composição poética ("Armadilha para Orfeu"). Dei este nome de "praia provisória", porque sei que escrevi para que a beleza aí alcançada fosse breve, passageira.

Gostaria de, neste final, falar algo mais aos nossos leitores?


Sim. Que corram mais na praia, freqüentem academia de musculação e que, se puderem, mergulhem no mar ou numa piscina. A poesia agradece. É melhor ser atleta que poeta, com perdão da rima.

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº10: download PDF

 

 

 

 






 

 


 

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